4º TRAMA - FESTIVAL DE ARTES PERFORMATIVAS
8, 9, 10 e 11 de Outubro de 2009
Articulado em estreita relação com os espaços públicos e representativos da cidade - de Serralves às Piscinas do Fluvial passando pelo Hotel D. Henrique, a Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, o Mosteiro de São Bento da Vitória, a Fábrica Social, o Teatro do Campo Alegre, a Culturgest, o edifício da antiga RDP, os Maus Hábitos e o Passos Manuel, o Trama vem novamente reunir o núcleo de programadores do Auditório de Serralves, do brrr Live Art e da Matéria Prima na criação de um programa que se deseja representativo da criação performativa actual e recíproco na relação com os públicos, artistas e parceiros envolvidos.
Experimental na sua génese, o Trama propõe surpreender o seu público com performances intensas e inovadoras, articuladas num programa que deseja, de forma flexível, proporcionar novas vivências e explorações da cidade, singulares e partilhadas.
Não obedecendo a uma direcção temática rígida, é possível, no entanto, traçar linhas de coesão entre as diferentes propostas desta edição, nomeadamente na reflexão sobre o conceito de teatralidade e da presença performativa. Talvez por isso o Trama tenha retraído a rua enquanto palco de eventos (mantendo-se, no entanto, palco do festival) para, em consonância com os projectos apresentados, ocupar lugares que permitem, no seio desta trama que se quer cruzada, dar relevo a estas linhas paralelas.
Assim, apresentam-se várias propostas onde o espaço do espectáculo, enquanto lugar de representação, é banalizado e desconstruído com ironia. A problematização desta temática - incluindo a já clássica questão da relação com o público – é aprofundada de forma absurda e humorística pela companhia teatral britânica Forced Entertainment e pelo coreógrafo português Miguel Pereira. Acresce destacar a capacidade interpretativa dos actores destas peças e a surpreendente vitalidade inscrita nas formas teatrais que propõem abordar criticamente.
Por seu lado, Patrícia Portela com os seus AudioMenus regressa - num bar de Hotel – ao lugar da representação do texto no teatro, pela criação de um dispositivo que possibilita a escolha de uma peça para ser ouvida individualmente.
As curtas performances musicais de Tori Wrånes são trágico-comédias desarmantes que exploram o efeito de suspensão que a aparição e o inesperado provocam. O corpo da artista assume-se como uma escultura que canta e também como estrutura para as intensas performances.
A cantora de ópera-performer Juliana Snapper constrói um espectáculo épico e visual com referências barrocas, em que o canto subaquático se insurge desafiador das possibilidades oferecidas pela tecnologia da voz. A revelação da presença performativa surge do confronto com os limites do seu lugar e das condições que enformam a sua expressão.
E se com Snapper encontramos esta presença naquilo que resiste ao dilúvio e emerge do trágico afogamento do discurso, com KK Null ou Sir Alice, vamos encontrá-la destilada por estratégias de excesso, por rupturas explosivas com as formas de música e de performance canonizadas, provocadas por um descomedimento e exagero gritantes.
Nas pequenas peças de Sigmund Skard, a performance surge de desvios simples ou percalços nas relações com situações ou objectos do quotidiano, que no entanto tomam proporções trágicas e teatrais ao serem deslocadas para um espaço de representação.
No projecto ATOM, o objecto, a máquina e a ciência são colocados em palco. Este concerto é uma experiência plástica em que os grandes protagonistas são 64 frágeis balões cheios de hélio. O emocionante bailado luminoso de balões ao som de paisagens sonoras electrónicas devolve-nos a tecnologia e a ciência redescobertas pela intenção artística e pelos afectos inspirados pela performance. Este mesmo processo exploratório de revelação e encantamento encontram no uso desviante que o colectivo Institut Für Feinmotorik faz do convencional gira-discos. Nas suas mãos estes objectos mecânicos reprodutores de música abandonam os discos para serem convertidos em instrumentos musicais através de modificações e preparações várias que os transformam num organismo-máquina flexível e aberto a diversas utilizações e improvisações sonoras.
Soft Circle e HHY & The Macumbas convidam-nos para um mundo mais ritualístico e também psicadélico. Encontramo-nos agora envoltos pela densa névoa multidimensional da nossa complexa relação com a produção musical e a sua audição, enquanto os performers nos conduzem com ritmos inebriantes até territórios misteriosos onde as sensações são emaranhadas indestrinçáveis de relações ambíguas e remotas que arrebatam tanto o nosso corpo como o espírito. Nesta Trama propomos ainda reflectir sobre os códigos do discurso performativo como elo de ligação com a memória – documental, social, individual e colectiva. No filme de Jérôme Bel, Véronique Doisneau, a bailarina invisível, fala na primeira pessoa sobre a sua vida com uma simplicidade aparente dada a subjectividade emotiva das memórias que ela recupera e interpreta. Marcia Farquhar desvenda o seu guarda-roupa desfilando na passerelle improvisada uma sequência de peças simbólicas em rememoração da vida privada da artista. Ao contrário do que se passa na moda, sobre esta modelo não podemos projectar as nossas fantasias. Farquhar não se limita a uma construção visual e simbólica, antes instala um discurso pessoal incisivo que domina constantemente a cena.
O valor do documento e a sua revisitação é igualmente convocado nos álbuns de família de Cristian Chironi e no Passeio ao Norte.
O resgate de passados reais e privados são aqui pretexto para evocar imagens colectivas que contêm emoções mas também ideologias. Quem não tem uma fotografia em frente à muralha de um castelo?

Espectacular, atómico, operativo e operático, o Trama partilha com a cidade a sua dimensão performativa.